sábado, agosto 19, 2006

Teoria (1)

O Spiritual Work Group do International Work Group on Death, Dying, and Bereavement publicou em 1990 trinta e um pressupostos e princípios sobre cuidados espirituais aos pacientes e suas famílias, profissionais de saúde, comunidades, investigação e educação nesta área[1]. Estes pressupostos reconhecem que todas as pessoas têm uma dimensão espiritual, que expressam de diferentes formas e que influencia como os pacientes e seus cuidadores experienciam a doença, o morrer ou o luto.

Elizabeth Taylor propõe-nos uma selecção de doze daqueles pressupostos e princípios [2]:

  • Pressuposto: Cada pessoa tem uma dimensão espiritual.
  • Princípio: No cuidado total, a natureza espiritual da pessoa deve ser considerada tanto quanto as dimensões física, mental, emocional.
  • Pressuposto: Numa sociedade multicultural a natureza espiritual de cada pessoa é expressa por crenças religiosas e filosóficas e as práticas diferem substancialmente, dependendo da raça, do género, do estatuto social, da religião, da etnia e da experiência de cada um.
  • Princípio: Uma única abordagem de cuidados espirituais não é suficiente em sociedades multiculturais; são necessários muitos tipos de recursos.
  • Pressuposto: A espiritualidade tem muitas facetas. Expressa-se e desenvolve-se por caminhos formais e informais, religiosos e laicos.
  • Princípio: Deve estar disponivel e acessível uma grande variedade de oportunidades para expressar e desenvolver a espiritualidade.
  • Pressuposto: O ambiente molda e pode desenvolver ou prejudicar a espiritualidade.
  • Princípio: Os planos de cuidados devem considerar as preferências individuais e experiências comunitárias.
  • Pressuposto: Os clientes podem ter já um modo de satisfazer as suas necessidades espirituais de forma satisfatória.
  • Princípio: Os enfermeiros deverão respeitar a forma como os clientes satisfazem as suas necessidades espirituais.
  • Pressuposto: As necessidades espirituais dos clientes podem variar no decurso de uma doença.
  • Princípio: Os enfermeiros precisarão estar atentos à variação das preocupações espirituais que podem ser expressas nas diferentes fases da doença.
  • Pressuposto: As necessidades espirituais podem surgir a qualquer hora e em qualquer dia.
  • Princípio: Um ambiente cuidativo deverá estar preparado para promover cuidados espirituais em qualquer momento.
  • Pressuposto: Os seres humanos têm diferentes níveis de desenvolvimento espiritual, crenças e formas de conhecimento.
  • Princípio: Os enfermeiros deverão conhecer vários sistemas de crenças e compreender a interpretação que o cliente faz deles.
  • Pressuposto: Os clientes e as suas famílias podem ter diferentes crenças espirituais e não estar conscientes disso.
  • Princípio: Os enfermeiros deverão conhecer as diferentes crenças dos membros da família e estar atentos às dificuldades que isso pode provocar.
  • Pressuposto: A forma como cada cliente e família deseja analisar e partilhar problemas espirituais é muito individual.
  • Princípio: Os enfermeiros devem ser sensíveis aos desejos individuais e não ser intrusivos.
  • Pressuposto: Os clientes nem sempre estão conscientes ou capazes, ou desejam falar de questões espirituais.
  • Princípio: Os enfermeiros, conscientes que o cliente não quer partilhar com eles questões espirituais, devem providenciar o acesso a outros recursos que o cliente deseje.
  • Pressuposto: O crescimento e cura espiritual podem ocorrer sem ajuda. Muitas pessoas não desejam nem precisam de assistência profissional no seu crescimento espiritual.
  • Princípio: A afirmação da disponibilidade de ajuda espiritual, se desejada, pode ser tudo quanto o paciente precisa.

    [tradução livre]
    _________________________
    [1] International Work Group on Death, Dying, and Bereavement (1990). Assumptions and principles of spiritual care. Death Studies. 14(1):75-81.
    [2] Taylor, Elizabeth J. (2002) - Spiritual Care. Nursing Theory, Research, and Practice. Upper Saddle River, New Jersey: Prentice Hall. p. 25-27

3 comentários:

Maria disse...

Tive conhecimento de uma situação que acontece muito frequentemente, em que uma pessoa adoeceu repentinamente e a família ao saber do diagnóstico que neste caso era uma doença incurável já em fase terminal, simplesmente decidiu ocultar-lhe o seu grave estado de saúde. Ficaram todos desnorteados, era um tumor grave, era melhor que não soubesse pois não sofreria tanto e estavam dispostos a fazer tudo para lhe dar as melhores condições possíveis. Porém explicaram que tinha que ser operada e a senhora em causa aceitou, pedindo por tudo para não a deixarem no hospital e para não ficar com o saquinho para as fezes. Ao fim de um ano morreu em casa, no seu leito junto da sua família, que a viu piorar de dia para dia, mas que cumpriu a sua vontade e a cuidou o melhor que pode se bem que as dores fossem de muito difícil controlo e necessitásse de muitos mais cuidados. Mas nunca lhe disseram ao certo o que ela tinha e que ia morrer; o que é certo é que a senhora ia desconfiando e dizia por vezes "vocês pensam que isto é uma coisa e vai ser outra...", mas perante isto iam sempre desviando quem sabe na esperança de que a senhora ainda tivesse salvação. Quando ainda podia andar saiam com ela; só elogiava os cuidados e as mãos que a cuidavam tão carinhosas. Mas nos últimos dias ia sendo mais custoso e no último mês acamou, as dores iam sendo mais, ficou muito magra, mais confusa, tinha momentos em que não conhecia as pessoas, acabou por ficar em coma...; o médico ia sendo chamado mas pouco podia fazer. Esta família teve um trabalho muito solitário e certamente desconhecia os recursos a que poderia ter recorrido como as consultas de controlo da dor que na altura já existiam, apoio de enfermagem domiciliário,.... E o facto de se omitir ao doente tem muito que se lhe diga e depende muito da sua própria vontade e maneira de ser; é muito difícil saber o que fazer, mas se a pessoa está consciente e orientada, se compreende tem todo o direito de saber. É da sua vida que se trata. mas cada pessóa é única...

LM disse...

.... pum!
CHEGUEI!!!

Há pessoas assim, meias distraídas, que quando chegam fazem sempre barulho, o mais não seja pela cadeira que arrastaram.
Gostei de ver este blog, que terei de ler todo (quem chega tarde, fica com o trabalho atrasado), e reencontrar espaços conhecidos, que eu preciso para ser feliz!
Até

Luís

Maria disse...

Mente sã em corpo são >=< espírito são. É um círculo de causas e efeitos. Mas a forma de usar a espiritualidade pode ajudar muito a recuperar o corpo e a mente quando padecem de algum mal. Ter fé, acreditar, enfrentar, pode parecer muito transcendental mas parte muito de nós próprios.